Categoria: Política com Pimenta

  • QUANDO A VITRINE MUDA DE LADO

    Confesso que fiquei sensibilizado.

    De verdade.

    É muito triste ver um homem público indignado porque sua esposa teve o nome mencionado em uma reportagem. Família é família. Esposa é esposa. Vida particular é vida particular. Há limites que precisam ser respeitados.

    Quase me solidarizei.

    Quase.

    O problema é que, conforme a história vai sendo contada, surge aquele pequeno detalhe inconveniente que costuma estragar discursos emocionados: dinheiro público.

    Aí a conversa muda um pouquinho.

    Porque, ao que se noticia, o nome da esposa não apareceu numa coluna social, numa fofoca de esquina ou numa investigação sobre quem lava a louça depois do jantar. O nome apareceu ligado a um imóvel que consta em uma prestação envolvendo recursos públicos.

    E aí, meu caro, temos um problema semântico.

    Quando o assunto é casamento, férias, aniversário, briga de família ou churrasco de domingo, realmente ninguém deve satisfação.

    Mas quando o CPF da família passeia por documentos relacionados a dinheiro público, ele deixa de frequentar apenas a sala de estar e passa a visitar também a sala da transparência.

    E lá a decoração é um pouco diferente.

    Tem documento.
    Tem valor.
    Tem contrato.
    Tem prestação de contas.
    E, principalmente, tem pergunta.

    A reportagem questionou o valor do aluguel.

    Pode estar tudo absolutamente correto? Claro.

    Pode existir explicação plausível? Evidentemente.

    Então apresente-se a explicação.

    Simples assim.

    Porque uma coisa curiosa acontece com dinheiro público: ele possui esse péssimo hábito de pertencer ao público.

    E o público pergunta.

    O público questiona.

    O público quer saber quanto custou, para quem foi pago, por que aquele valor foi praticado e quais critérios foram utilizados.

    Que inconveniência, não?

    Mas até aqui eu ainda estava tentando compreender a revolta.

    Talvez fosse apenas aquele instinto natural de proteger a família.

    Bonito.

    Humano.

    Comovente.

    Até que a memória resolveu participar da conversa.

    E memória é uma criatura absolutamente inconveniente.

    Porque não faz tanto tempo assim que o mesmo defensor apaixonado da privacidade parecia ter uma concepção um pouco diferente sobre exposição de pessoas.

    Naquela época, nomes de servidores municipais podiam aparecer tranquilamente no debate político.

    Gente que não disputava eleição.

    Gente que não tinha cargo político.

    Gente que apenas trabalhava.

    Se fosse necessário citar nomes, expor situações ou colocar servidores no meio de uma disputa para atingir adversários políticos, aparentemente não havia grandes crises existenciais sobre privacidade, família ou constrangimento.

    Era política.

    Era fiscalização.

    Era denúncia.

    Era interesse público.

    Agora o holofote virou.

    E, subitamente, descobriu-se a intimidade.

    Que transformação maravilhosa.

    É quase uma conversão espiritual.

    Quando o nome exposto era o dos outros, tínhamos o sagrado direito de fiscalização.

    Quando o nome mencionado pertence à própria família, temos uma terrível invasão da vida privada.

    Interessante como certos princípios possuem uma impressionante capacidade de mudar de tamanho dependendo de quem está embaixo deles.

    Talvez exista até uma tabela.

    Privacidade dos outros: negociável.

    Privacidade dos meus: cláusula pétrea.

    E existe ainda um detalhe particularmente saboroso nessa história.

    Se a relação comercial questionada envolve pessoas politicamente próximas, integrantes do mesmo grupo ou amigos pessoais, então perguntar não é perseguição.

    É exatamente o que deveria acontecer.

    Perguntar não condena ninguém.

    Questionar não prova irregularidade.

    Uma reportagem não substitui investigação, processo ou julgamento.

    Mas lançar luz sobre aquilo que envolve recursos públicos é justamente uma das funções mais básicas de quem fiscaliza o poder.

    Curiosamente, muitos políticos adoram essa definição.

    Principalmente quando a lanterna está apontada para o adversário.

    O problema começa quando alguém gira a lanterna cento e oitenta graus.

    Aí incomoda os olhos.

    Aí é exposição.

    Aí é perseguição.

    Aí mexeram com a família.

    E eu continuo solidário.

    Solidário com o desconforto.

    Deve ser realmente desagradável ter seu nome questionado publicamente.

    Deve ser horrível ver pessoas discutindo fatos relacionados à sua família.

    Deve causar revolta perceber que alguém está pegando documentos, levantando valores e fazendo perguntas.

    Imagine passar por isso.

    Imagine como devem ter se sentido aqueles servidores municipais cujos nomes foram colocados no palco político quando isso era conveniente.

    Pois é.

    A vida possui um senso de humor peculiar.

    Às vezes ela simplesmente troca os personagens de lugar e mantém exatamente o mesmo roteiro.

    E talvez essa seja a parte mais educativa de toda a história.

    Porque fiscalização não pode funcionar como aquelas portas automáticas de shopping: abre quando eu quero passar e fecha quando vêm na minha direção.

    Se é legítimo investigar os outros, é legítimo ser investigado.

    Se é legítimo pedir explicações, é preciso também saber fornecê-las.

    Se determinada relação envolve dinheiro público, ninguém ganha imunidade a perguntas por carregar determinado sobrenome.

    Nem político.

    Nem amigo.

    Nem aliado.

    Nem esposa.

    E se estiver tudo correto, melhor ainda.

    Apresentam-se os documentos, esclarecem-se os valores e encerra-se o assunto.

    Agora, transformar o questionamento em escândalo apenas porque, desta vez, o personagem da reportagem dorme na mesma casa que você…

    Aí fica difícil não perceber a ironia.

    Por isso termino com uma pergunta simples.

    Uma pergunta pequena.

    Talvez até um pouco deselegante.

    Mas absolutamente irresistível: