Categoria: Política com Pimenta

  • Missão Difícil: Ser Eleitor no Brasil

    Há algum tempo, descobri que votar ficou complicado.

    Antigamente, pelo menos na minha ingenuidade, o sujeito analisava os candidatos, escolhia um deles, ia até a urna, apertava alguns números, conferia a foto e pronto. Saía dali com a maravilhosa sensação democrática de ter feito sua escolha.

    Hoje não.

    Hoje parece que o voto exige assessoria de imprensa.

    Você precisa anunciar o candidato, publicar foto, colocar moldura no perfil, compartilhar vídeo, discutir no grupo da família, romper com dois primos, silenciar um tio e, dependendo do grau de comprometimento democrático, deixar de cumprimentar o vizinho.

    O curioso é que o voto continua secreto.

    Secreto!

    Talvez seja necessário atualizar o conceito da palavra, porque algumas pessoas tratam o voto secreto como aquelas receitas de família que são tão secretas que todo mundo conhece.

    E existe uma modalidade ainda mais fascinante de eleitor: aquele que sabe absolutamente tudo sobre o candidato adversário e quase nada sobre o próprio.

    Pergunte:

    — Por que você vai votar no Fulano?

    A resposta:

    — Porque o Beltrano é um canalha!

    Tudo bem. Mas o que o Fulano fez de bom?

    — Você não sabe o que o Beltrano fez?

    Sei. Mas estou perguntando do Fulano.

    — O Beltrano fez uma coisa absurda em 2017!

    Nesse momento você percebe que não está diante de um eleitor. Está diante do departamento de investigação da campanha adversária.

    O candidato preferido dele pode não ter projeto, proposta ou realização conhecida. Isso é detalhe. O importante é que o outro é horrível.

    É uma espécie de namoro eleitoral baseado exclusivamente no ódio ao ex da outra pessoa.

    Também criamos a extraordinária ideia de que preferência política precisa determinar relacionamento.

    A pessoa pode ser educada, honesta, divertida, estar ao seu lado há vinte anos, ajudar quando você precisa e aparecer nos momentos difíceis.

    Mas votou diferente.

    Imperdoável.

    — Não converso mais com ele.

    — Por quê?

    — Política.

    Pronto. Vinte anos de amizade derrotados por dois números digitados numa urna.

    Evidentemente existem valores e questões políticas que podem ser importantes numa relação. Cada pessoa estabelece seus limites. O estranho começa quando a política deixa de ser uma parte da vida e passa a ser o departamento de Recursos Humanos das nossas amizades.

    “Antes de iniciarmos nossa amizade, favor informar seu candidato, partido, ideologia e anexar comprovante das últimas três eleições.”

    E tudo isso fica ainda mais divertido quando lembramos que boa parte da política funciona por estruturas que atravessam eleições, partidos e gerações: grupos tradicionais, alianças recorrentes, famílias políticas, máquinas partidárias e pessoas que passam décadas circulando pelo poder.

    Enquanto isso, nós, aqui embaixo, estamos brigando no churrasco.

    O político termina a eleição, conversa com o adversário, faz acordo, muda de partido, compõe chapa, negocia apoio e eventualmente aparece sorrindo ao lado daquele que, três meses antes, segundo a propaganda eleitoral, representava praticamente o fim da civilização ocidental.

    Já o eleitor continua sem falar com o cunhado.

    Porque tem princípios.

    Talvez essa seja uma das grandes genialidades do sistema: transformar preferência em paixão, paixão em torcida e torcida em fanatismo.

    Quanto mais apaixonada a arquibancada, menos ela pergunta sobre o campeonato.

    E chegamos então à polarização, essa maravilhosa invenção segundo a qual só existem duas possibilidades para qualquer problema humano.

    Ou A ou B.

    Se você critica A, obviamente ama B.

    Se critica B, certamente trabalha para A.

    Se disser que não gosta de nenhum dos dois, imediatamente alguém explicará que você está “em cima do muro”.

    Porque aparentemente pensar exige escolher um muro antes.

    O problema é que, quando convencemos todo mundo de que só existem duas opções possíveis, podemos acabar fechando a porta justamente para uma terceira pessoa que talvez tivesse boas propostas.

    Ela pode ser competente, equilibrada, preparada e apresentar ideias interessantes.

    Azar o dela.

    A arquibancada já está lotada.

    De um lado:

    — O MEU!

    Do outro:

    — O MEU!

    E no meio talvez esteja alguém tentando dizer:

    — Posso apresentar meu projeto?

    Não pode.

    Estamos ocupados demais discutindo quem destruiu mais o país.

    Talvez fosse revolucionário recuperar uma prática antiga e perigosíssima: escolher um candidato sem transformar isso numa religião.

    Pesquisar.

    Comparar.

    Questionar inclusive quem você pretende apoiar.

    Reconhecer uma boa proposta de alguém de quem você não gosta.

    Reconhecer uma proposta ruim de alguém de quem você gosta.

    E, no dia da eleição, votar.

    Só votar.

    Sem precisar converter o vizinho.

    Sem transformar o almoço de domingo em debate eleitoral.

    Sem produzir um documentário de 47 minutos no grupo da família explicando por que todos estão errados.

    Afinal, existe uma razão para o voto ser secreto.

    Você pode escolher quem quiser.

    Eu também.

    E depois podemos tomar café juntos.

    Se nossos candidatos quiserem brigar, deixemos que briguem.

    Embora exista uma possibilidade bastante razoável de que, depois da eleição, eles estejam tomando café juntos antes de nós.