Categoria: Política com Pimenta

  • DEMOCRACIA: MARAVILHOSA, DESDE QUE EU CONCORDE!

    Ah, a democracia! Esse maravilhoso sistema em que o povo tem o direito de escolher seus representantes, manifestar suas opiniões e participar dos rumos do país.

    Uma verdadeira celebração da liberdade, da pluralidade e da vontade popular.

    Desde que, evidentemente, a vontade popular seja igual à minha.

    Porque existe uma diferença gigantesca entre defender a democracia no discurso e aceitar seus resultados na prática.

    Quando meu candidato vence, o povo é sábio, consciente e politizado. Quando perde, esse mesmo povo se transforma numa multidão de ignorantes, manipulados e incapazes de compreender a própria realidade.

    É impressionante como a inteligência do eleitor brasileiro muda de uma eleição para outra, sem que ninguém precise frequentar uma única sala de aula!

    E assim seguimos, nesse maravilhoso exercício democrático em que todos defendem a liberdade de escolha, mas alguns parecem acreditar que o eleitor deveria ter liberdade apenas para escolher corretamente.

    E, naturalmente, quem define o que é correto sou eu.

    Existe um fenômeno fascinante na política brasileira: a indignação com prazo de validade e preferência partidária.

    Durante quatro anos, milhões de brasileiros convivem com governos dos quais discordam. Alguns protestam, outros criticam, muitos simplesmente seguem suas vidas, trabalham, pagam impostos e aguardam a próxima oportunidade de votar.

    Enquanto isso, uma parcela da população parece desenvolver uma extraordinária capacidade de tolerância.

    Denúncias de corrupção? Vamos aguardar as investigações.

    Suspeitas de autoritarismo? Precisamos compreender o contexto.

    Decisões controversas? As instituições estão funcionando.

    Problemas econômicos? É uma situação complexa.

    Mas basta trocar o personagem principal da história para que o roteiro mude completamente.

    A denúncia vira condenação antecipada.

    O contexto desaparece.

    As instituições entram em colapso.

    E a situação econômica passa a ser responsabilidade exclusiva de quem acabou de chegar.

    O mais curioso é que esse fenômeno não possui exclusividade ideológica.

    A indignação brasileira é tão democrática que consegue ser seletiva dos dois lados.

    Eis que chegam as eleições.

    O povo vota, os resultados aparecem e, subitamente, descobrimos que o destino da civilização está em jogo.

    Ainda nem terminou o processo eleitoral, mas as previsões já são dignas de uma superprodução de Hollywood.

    A democracia vai acabar!

    A economia vai desaparecer!

    As liberdades serão destruídas!

    O país nunca mais será o mesmo!

    Confesso que, diante de tantas previsões catastróficas, já comecei até a sentir o calor da Amazônia em chamas.

    Não sei se é o aquecimento global, a temperatura da polarização ou simplesmente o calor produzido pelos processadores dos celulares que não param de publicar tragédias anunciadas.

    O interessante é que o apocalipse muda de figurino conforme o resultado.

    O que ontem representava esperança, hoje representa ameaça.

    O que antes era resistência democrática, agora pode ser interpretado como inconformismo eleitoral.

    E vice-versa.

    No Brasil, até o fim do mundo precisa respeitar o calendário eleitoral.

    Vivemos numa época em que a realidade parece ter se transformado num serviço de streaming.

    Cada pessoa escolhe o catálogo que deseja assistir.

    Se a notícia favorece meu candidato, é um fato incontestável.

    Se prejudica, é uma narrativa.

    Se meu político é investigado, devemos respeitar a presunção de inocência.

    Se o adversário é investigado, onde há fumaça, há fogo.

    Se meu lado protesta, é manifestação legítima.

    Se o outro protesta, é ameaça à democracia.

    Se meu candidato questiona uma decisão, está exercendo seu direito.

    Se o adversário faz o mesmo, está atacando as instituições.

    A coerência, coitada, já pediu demissão há muito tempo.

    E o mais extraordinário é observar pessoas que passaram anos relativizando determinados acontecimentos descobrirem, repentinamente, uma paixão incondicional pelos princípios que antes pareciam negociáveis.

    Mas não se preocupem.

    Na próxima alternância de poder, os discursos poderão ser reciclados.

    Basta trocar os nomes, as fotografias e as cores das bandeiras.

    Talvez o grande problema seja termos transformado a política numa espécie de campeonato de futebol.

    Meu candidato é meu time.

    Meu partido é minha torcida.

    O adversário é meu inimigo.

    E qualquer crítica ao meu lado é automaticamente interpretada como apoio ao outro.

    Nesse campeonato, ninguém quer discutir o desempenho dos jogadores. O importante é defender o escudo.

    Se o meu time comete uma falta, o juiz está exagerando.

    Se o adversário faz exatamente a mesma coisa, queremos expulsão, suspensão e investigação internacional.

    E quem se recusa a vestir uma das camisas imediatamente se torna suspeito.

    Afinal, como alguém pode criticar os dois lados?

    Deve ser um infiltrado!

    Ou pior: alguém que resolveu pensar por conta própria.

    Talvez esteja na hora de recordar um conceito bastante simples.

    Democracia não significa que todos precisam concordar.

    Significa justamente que podemos discordar e, ainda assim, conviver sob as mesmas regras.

    É aceitar que seu candidato pode perder.

    É reconhecer que milhões de pessoas podem pensar diferente de você sem que isso as transforme automaticamente em inimigas da sociedade.

    É respeitar o resultado legítimo das urnas, sem abrir mão do direito de fiscalizar, criticar e cobrar os eleitos.

    Porque aceitar uma eleição não significa conceder um cheque em branco ao vencedor.

    E defender a democracia também não significa permanecer em silêncio diante de eventuais abusos, independentemente de quem os pratique.

    Princípios democráticos não deveriam mudar conforme a cor da bandeira, o número do partido ou o nome de quem ocupa a cadeira.

    Antes de publicar mais um manifesto anunciando a destruição da democracia, talvez fosse interessante fazer algumas perguntas.

    Eu teria a mesma indignação se o responsável fosse alguém em quem votei?

    Eu defenderia os mesmos princípios se a decisão favorecesse meu adversário?

    Eu cobraria a mesma transparência do político que admiro?

    Eu respeitaria a manifestação de quem pensa diferente de mim?

    E, principalmente, minha preocupação é realmente com o país ou apenas com o fato de que minha preferência política não prevaleceu?

    São perguntas simples.

    As respostas, nem tanto.

    Porque talvez o maior desafio da democracia não seja aprender a votar.

    Seja aprender a conviver com o voto dos outros.

    E enquanto continuarmos confundindo convicção política com superioridade moral, seguiremos nessa eterna disputa para descobrir quem é o verdadeiro defensor da democracia.

    Curiosamente, todos parecem ter certeza de que são.

    E de que o problema está sempre do outro lado.

    Quanto a mim, continuarei defendendo o direito de cada brasileiro escolher seus representantes, inclusive quando discordar profundamente dessa escolha.

    Continuarei cobrando coerência, responsabilidade e respeito às instituições, independentemente de quem esteja no poder.

    E continuarei desconfiando de quem só descobre a importância da democracia quando o resultado lhe desagrada.

    Afinal, democracia não é quando o meu lado vence. É quando as regras continuam valendo, inclusive quando ele perde.

    Quanto ao anunciado fim do mundo, sigo aguardando.

    Por enquanto, a única coisa que realmente parece estar em chamas são os grupos de WhatsApp.

    E, considerando o nível das discussões, talvez o maior risco para o Brasil não seja a próxima eleição.

    Seja a próxima reunião de família.