
Existe um tipo muito curioso de sofrimento: aquele que a gente mesmo cultiva, rega e depois chora em cima.
O professor reclama — e com razão — da desvalorização. Salário baixo, estrutura precária, respeito em falta. Um cenário que se repete há décadas. Mas, na mesma mesa de bar onde ele desabafa, está também a defesa apaixonada de ideias que, na prática, achatam ainda mais sua profissão. É como reclamar da chuva enquanto insiste em furar o próprio telhado.
O eleitor, por sua vez, é um caso clássico de memória seletiva. Reclama da corrupção, da inércia, dos mesmos rostos ocupando os mesmos cargos. Revolta-se, escreve textão, discute no almoço de domingo. Aí chega a eleição… e ele vota como quem assina um contrato com o próprio arrependimento. Depois, surpreende-se. Sempre surpreendido. Um inocente reincidente.
O trabalhador clama por melhores condições, mas aplaude modelos que precarizam o próprio trabalho. O cidadão exige saúde pública de qualidade, mas trata o coletivo como se fosse um detalhe opcional. O consumidor quer preço justo, mas sustenta práticas que esmagam exatamente quem produz.
É um ciclo elegante na sua incoerência: critica-se o efeito, protege-se a causa.
Talvez o problema não seja falta de informação. Nem de experiência. Talvez seja algo mais desconfortável: a necessidade de manter certas crenças, mesmo quando elas trabalham contra nós. Porque mudar exige admitir erro. E isso, aparentemente, dói mais do que continuar sendo prejudicado.
No fim das contas, não é só desvalorização.
É colaboração involuntária com o próprio fracasso.
E talvez o mais cruel de tudo seja isso:
a gente não só aceita o problema —
a gente ajuda a sustentá-lo.
