• Nós não somos mais o país do futebol

    Existe uma frase que atravessou gerações e acabou virando verdade absoluta:

    O Brasil é o país do futebol.

    Foi.

    Hoje, talvez ela sobreviva muito mais como slogan do que como realidade.

    Durante décadas, o mundo inteiro esperava pela Seleção Brasileira como quem esperava um espetáculo. Não importava o adversário. O Brasil entrava em campo para vencer, mas, principalmente, para encantar. O placar era consequência; o show era obrigação.

    Hoje, o roteiro mudou.

    Entramos em campo torcendo para que alguém invente alguma coisa.

    E esse “alguém” sempre teve nome. Nos últimos quinze anos ele se chamou Neymar.

    O problema é que chegamos ao ponto de convocar o último jogador realmente genial do futebol brasileiro mesmo sem estar em condições ideais de jogo. Não porque ele ainda fosse a solução, mas porque simplesmente não apareceu ninguém para ocupar o seu lugar.

    E isso talvez seja o retrato mais cruel da nossa realidade.

    Durante décadas produzimos Pelé, Tostão, Rivellino, Zico, Falcão, Romário, Bebeto, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká…

    Hoje comemoramos quando aparece um jogador que arrisca um drible.

    Percebe o tamanho da queda?

    O futebol brasileiro parece ter desaprendido justamente aquilo que o fez ser admirado pelo mundo.

    Sempre fomos conhecidos pelo improviso, pela criatividade, pela irreverência, pelo jogador que enxergava um passe onde ninguém via, que inventava um drible onde a lógica dizia para tocar para o lado.

    Hoje fabricamos atletas.

    Fortes.

    Rápidos.

    Intensos.

    Fisicamente impecáveis.

    Taticamente disciplinados.

    E extremamente previsíveis.

    Produzimos cada vez mais volantes, jogadores que percorrem quilômetros durante uma partida, fecham espaços, recompõem, pressionam, cumprem cada função desenhada pelo treinador.

    E fazem tudo isso muito bem.

    Só esqueceram de jogar bola.

    Falta o passe improvável.

    Falta o drible desconcertante.

    Falta o improviso.

    Falta aquele jogador que fazia quarenta mil pessoas levantarem da cadeira simplesmente porque pegou na bola.

    Talvez por isso qualquer atleta que demonstre um pouco mais de criatividade passe imediatamente a ser chamado de “diferenciado”. Em outros tempos, seria apenas mais um talento brasileiro. Hoje, virou artigo de luxo.

    Enquanto isso, seleções que jamais fizeram parte da elite do futebol evoluem em uma velocidade assustadora.

    Países sem tradição formam equipes organizadas, competitivas e, em muitos casos, tecnicamente superiores à nossa.

    Nós, que nunca ficamos fora de uma Copa do Mundo.

    Nós, pentacampeões.

    Nós, referência para o planeta inteiro.

    Assistimos essas seleções crescerem enquanto seguimos repetindo histórias de um passado que parece cada vez mais distante.

    Talvez o maior problema não seja perder.

    Grandes seleções também perdem.

    O problema é não reconhecer que mudamos.

    Ainda insistimos em nos apresentar como favoritos apenas porque um dia fomos.

    Vivemos da memória.

    Da camisa.

    Do escudo.

    Das cinco estrelas.

    Mas futebol não se joga com lembranças.

    Quem viu Pelé em 1970 carrega uma lembrança eterna.

    Quem viu Romário e Bebeto em 1994 sabe exatamente o que era decidir uma Copa.

    Quem acompanhou Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho em 2002 viu, talvez, o último grande espetáculo da Seleção Brasileira.

    Agora pense em quem nasceu depois de 2002.

    Essa geração nunca viu o Brasil ser, de fato, o Brasil.

    Conheceu eliminações.

    Frustrações.

    Trocas intermináveis de treinadores.

    Promessas que nunca se confirmaram.

    E uma seleção que parece sempre estar procurando um protagonista.

    Talvez seja justamente essa a diferença entre o passado e o presente.

    Antes dizíamos, com orgulho:

    “Nós somos pentacampeões do mundo.”

    Hoje, talvez a frase correta seja outra.

    Nós não somos penta.

    Nós fomos penta.

    E enquanto continuarmos vivendo apenas das glórias de ontem, sem entender por que elas existiram, corremos o risco de transformar o país do futebol em apenas uma boa lembrança.

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