• O Servidor Público e o Surgimento da Espécie dos “Servidos”

    Existe uma diferença fundamental entre um servidor público e um servido público.

    O primeiro foi contratado para atender à população.

    O segundo acredita sinceramente que a população existe para atendê-lo.

    O servidor chega ao trabalho e pensa:

    — O que preciso fazer hoje?

    O servido chega ao trabalho e pensa:

    — O que preciso evitar hoje?

    É uma evolução curiosa da espécie. Em algum momento da história administrativa, o conceito de estabilidade sofreu uma mutação genética. O que deveria proteger o servidor contra perseguições políticas acabou sendo interpretado por alguns como uma licença vitalícia para produzir o mínimo possível sem correr riscos.

    A estabilidade, que nasceu como um escudo, virou colchão.

    E um colchão extremamente confortável.

    O servido desenvolveu habilidades impressionantes ao longo dos anos. Sua produtividade pode ser questionável, mas sua capacidade de sobrevivência institucional é digna de documentários da vida selvagem.

    Quando alguém sugere que ele cumpra suas atribuições, inicia-se imediatamente o protocolo de defesa.

    Fase 1: Indignação.

    — Estão me perseguindo.

    Fase 2: Vitimização.

    — Nunca fui tratado assim em vinte anos de serviço.

    Fase 3: Acionamento do Sindicato.

    — Meus direitos estão sendo violados.

    Fase 4: Laudo Médico Estratégico.

    — Meu quadro clínico piorou por causa da pressão.

    Em poucos dias, o problema deixa de ser o fato de alguém não trabalhar.

    O problema passa a ser quem teve a ousadia de pedir que ele trabalhasse.

    É uma inversão tão espetacular que desafia as leis da física.

    Mas existe uma habilidade ainda mais refinada, quase uma pós-graduação em sobrevivência burocrática.

    A Nobre Arte de Tirar o Próprio Traseiro da Reta

    O praticante experiente jamais assume responsabilidade por nada.

    Se deu certo, foi graças à sua visão estratégica.

    Se deu errado, faltou comunicação.

    Se piorou, a culpa foi do sistema.

    Se explodiu, a culpa foi da gestão anterior.

    Se ninguém fez, certamente alguém deveria ter feito.

    E se, por alguma tragédia administrativa, ficar provado que era exatamente ele quem deveria ter feito, então surge a frase sagrada:

    — Ninguém me avisou.

    Trata-se de uma modalidade olímpica do serviço público moderno.

    O objetivo não é resolver o problema.

    O objetivo é garantir que, quando o problema explodir, os estilhaços atinjam qualquer pessoa, menos o responsável.

    Documenta-se pouco.

    Decide-se menos ainda.

    Empurra-se para frente.

    Copia-se metade da prefeitura em um e-mail.

    Encaminha-se para três setores diferentes.

    Abre-se um protocolo.

    Depois outro protocolo para acompanhar o primeiro protocolo.

    E, finalmente, produz-se aquilo que todo burocrata defensivo mais ama: um rastro documental suficientemente confuso para que ninguém consiga descobrir quem deveria ter tomado a decisão.

    O problema continua exatamente onde estava.

    Mas o traseiro, este sim, foi retirado da reta com absoluto sucesso.

    Imagine um goleiro que não defende.

    Um cozinheiro que não cozinha.

    Um motorista que não dirige.

    Agora imagine que, ao ser cobrado, eles processem o treinador, acionem o sindicato da categoria e tirem licença por estresse ocupacional.

    No serviço público, em alguns lugares, isso não seria sequer uma cena de comédia.

    Seria apenas uma terça-feira.

    Mas não seria justo colocar toda a culpa nos servidos.

    Existe um ecossistema inteiro que favorece sua reprodução.

    Quando surge um caso desses, a administração geralmente possui duas opções.

    A primeira é enfrentar.

    A segunda é transferir.

    Adivinhe qual costuma vencer.

    Porque enfrentar exige processos, relatórios, sindicâncias, recursos, manifestações, pareceres, contraditórios, ampla defesa e, principalmente, disposição para suportar meses de desgaste.

    Transferir exige apenas um memorando.

    E assim nasce uma solução tipicamente brasileira:

    O problema não é resolvido.

    Ele é realocado.

    O servido é cuidadosamente transportado para outro setor, como quem move um sofá velho de um cômodo para outro.

    O sofá continua ocupando espaço.

    Mas agora ocupa espaço longe da sala principal.

    Alguns gestores se tornam verdadeiros especialistas nessa prática.

    Não administram problemas.

    Administram distâncias.

    O objetivo não é corrigir a situação.

    É apenas garantir que ela aconteça longe o suficiente para não aparecer na sua mesa.

    O problema deixa de ser da instituição.

    Passa a ser do próximo gestor.

    Uma espécie de futebol administrativo onde ninguém chuta para o gol.

    Todos apenas passam a bola.

    Enquanto isso, os verdadeiros servidores seguem fazendo aquilo que sempre fizeram.

    Assumem a tarefa que ninguém fez.

    Resolvem o problema que ninguém resolveu.

    Atendem a demanda que ninguém quis atender.

    Cobrem a ausência.

    Compensam a inércia.

    Corrigem o erro.

    E acumulam mais uma responsabilidade porque alguém decidiu que trabalhar era opcional.

    O resultado é uma matemática cruel.

    Quanto mais servidos existem, mais os servidores precisam servir.

    E quanto melhor o servidor trabalha, mais tarefas recebe.

    A recompensa pela eficiência é frequentemente mais eficiência.

    Já a recompensa pela ineficiência costuma ser uma conversa cautelosa para evitar conflitos.

    É uma lógica fascinante.

    Quem entrega recebe mais trabalho.

    Quem não entrega recebe mais compreensão.

    Quem resolve problemas ganha novos problemas.

    Quem cria problemas ganha reuniões para discutir seus sentimentos.

    Naturalmente, alguém aparece com soluções radicais.

    Acabar com a estabilidade.

    Terceirizar tudo.

    Privatizar o planeta.

    Mas basta alguém pronunciar essas palavras em voz alta para surgir, montado em um cavalo branco burocrático, o grande defensor universal:

    O Sindicato.

    Uma instituição que muitas vezes trava batalhas heroicas em defesa dos trabalhadores.

    E, ocasionalmente, trava batalhas igualmente heroicas em defesa de quem trabalha o mínimo possível.

    Porque a proteção coletiva possui um efeito colateral inevitável:

    Ela protege os bons.

    E protege os ruins também.

    O curioso é que o bom servidor raramente precisa dessa proteção.

    Ele está trabalhando.

    Atendendo.

    Produzindo.

    Cumprindo suas responsabilidades.

    Quem normalmente aparece aos gritos exigindo garantias extraordinárias não é o profissional exemplar.

    É justamente aquele que considera qualquer cobrança uma agressão institucional.

    No fim das contas, talvez o problema não seja a estabilidade.

    Nem a legislação.

    Nem o sindicato.

    Nem o gestor.

    Talvez o problema seja mais simples.

    Esquecemos o significado da palavra servidor.

    Servidor não é quem ocupa uma cadeira.

    Não é quem bate o ponto.

    Não é quem acumula tempo para aposentadoria.

    Servidor é quem serve.

    Parece uma definição ridiculamente óbvia.

    Mas, em alguns corredores da administração pública, tornou-se quase revolucionária.

    Afinal, o salário do servidor não nasce de uma árvore orçamentária.

    Ele sai do bolso de alguém.

    Do contribuinte.

    Do cidadão que espera atendimento.

    Da pessoa que paga impostos imaginando que o Estado funcionará.

    Por isso, cumprir as atribuições do cargo não deveria ser considerado heroísmo.

    Nem favor.

    Nem mérito extraordinário.

    É apenas o básico.

    O mínimo.

    O estritamente esperado.

    E talvez seja exatamente aí que esteja o drama da gestão pública moderna.

    Não na falta de recursos.

    Não na falta de tecnologia.

    Não na falta de leis.

    Mas no fato de que muitos gestores gastam 70% do seu tempo tentando convencer adultos a fazer aquilo para o qual foram contratados.

    Os outros 20% são consumidos tentando descobrir quem deveria resolver determinado problema.

    E os 10% restantes são dedicados a preencher documentos comprovando que o problema realmente existe.

    Tudo isso sem que ninguém se sinta perseguido.

    Sem que ninguém se considere assediado.

    Sem que ninguém interprete uma atribuição do cargo como um atentado aos direitos humanos.

    Porque, aparentemente, em alguns ambientes, pedir que uma pessoa faça aquilo para o qual foi contratada tornou-se um ato de extrema ousadia administrativa.

    E assim seguimos.

    Uns servindo.

    Outros sendo servidos.

    Todos recebendo do mesmo contribuinte.

    E uma parte considerável da máquina pública funcionando graças à silenciosa resistência daqueles que ainda acreditam que a palavra “servidor” é um substantivo.

    E não um estado de espírito opcional.

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