
Existem situações tão extraordinárias na administração pública que deveriam ser estudadas pela ciência.
Recentemente, acompanhei a fascinante jornada de um laudo de análise da água.
O documento nasceu digital. Foi concebido em um computador, enviado por e-mail e chegou perfeitamente ao destinatário.
Mas aí começou sua verdadeira aventura.
Ao invés de seguir viagem por mais alguns metros virtuais até quem precisava dele, o laudo foi promovido à categoria de documento físico. Foi impresso, retirado do confortável ambiente digital e colocado em um escaninho.
O interessado então precisou se deslocar fisicamente para buscar um documento que já havia viajado digitalmente centenas de quilômetros em questão de segundos.
Após a retirada, o documento foi levado até outra unidade, onde recebeu o tratamento digno de uma relíquia histórica: foi cuidadosamente digitalizado e enviado por e-mail para o setor que precisava dele.
Ou seja, um arquivo PDF saiu de um computador, virou papel, passeou pela cidade, voltou a ser PDF e terminou exatamente onde teria chegado em menos de cinco segundos caso alguém tivesse apertado o botão “Encaminhar”.
É uma operação logística tão sofisticada que faz a NASA parecer um grupo de escoteiros.
Imagino situações semelhantes em outras áreas:
— Receber um PIX e sacar o dinheiro para depositá-lo novamente na conta ao lado.
— Baixar um arquivo da internet, imprimir, fotografar com o celular e enviar pelo WhatsApp para si mesmo.
— Pedir um Uber para atravessar a rua.
— Comprar um ventilador para esfriar o notebook que está aberto apenas para imprimir um e-mail.
— Gravar um áudio no WhatsApp dizendo: “Vou te mandar uma mensagem de texto explicando melhor.”
O mais impressionante é que durante toda a operação foram consumidos papel, toner, energia elétrica, internet, combustível, tempo de trabalho e, principalmente, uma quantidade alarmante de oxigênio.
E tudo isso para que um documento terminasse exatamente da mesma forma como começou.
Há quem diga que a tecnologia veio para simplificar processos.
Mas ela claramente não contava com a criatividade humana para complicá-los.
Porque enquanto a informática trabalha com transferência de dados, a burocracia trabalha com transferência de sofrimento.
E assim seguimos, transformando um clique em uma expedição.

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