Metade do Sol

Era uma vez um casamento como tantos outros: construído em silêncio, no cimento da luta diária, entre contas a pagar e sonhos a dois. Não tinha tapete vermelho nem novela das nove. Mas tinha cumplicidade, ainda que aos trancos, e tinha história, ainda que riscada pelos desentendimentos do tempo.

Quando veio o divórcio — esse corte a frio que separa mais que papéis — um dos lados estendeu a mão apenas pelo que lhe cabia. Nada além, nada a mais. Sem ganância, sem revanche. Só a parte justa: a metade do que foi construído com suor compartilhado, contas conjuntas e madrugadas insones.

Mas o outro lado… ah, o outro lado!

O outro lado queria tudo. Queria o riso e o colchão. Queria o teto e o terreno, o quadro na parede e até as lembranças boas. Como se a separação lhe conferisse o direito de apagar o passado e reescrevê-lo a seu favor. E ali se instalou a injustiça: não a dos tribunais, que ainda dariam seu parecer, mas a da consciência.

Porque quem tenta tirar do outro o que é de ambos, fere antes a si. A pessoa que quer ferir o outro lado deliberadamente — mesmo conhecendo, no fundo da alma, que aquilo só foi possível a dois — precisa mentir pra si mesma antes de mentir pros autos. Precisa olhar no espelho e negar cada esforço que o outro fez. E isso, por mais que pareça vantagem no papel, é miséria de espírito.

A justiça dos homens é cega, dizem. Às vezes, tropeça mesmo com a balança na mão. Pode ser que ela não enxergue a verdade, ou que o carimbo venha manchado de equívocos. Mas a justiça divina? Essa não precisa de testemunha, não precisa de audiência. Ela age no silêncio, no tempo, no repouso da consciência e no peso que se acumula no travesseiro.

E no fim, não importa se a escritura vai carregar um nome só. Porque o coração de quem tenta levar o que não é só seu, acaba dividido também — não pela metade justa, mas pela culpa que corrói.

Já quem luta apenas pelo que é de direito, mesmo diante da injustiça, caminha em paz. Porque sabe que não precisa vencer no papel, se já venceu na dignidade. E isso… isso ninguém pode dividir.

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