
Era uma vez um mundo onde saber de tudo era obrigação, errar uma sigla era crime hediondo, e a dúvida era tratada como heresia. Bem-vindo ao universo dos Esclarecidos™, onde o saber virou fuzil e o debate virou pelotão de fuzilamento.
Hoje, ninguém mais pode simplesmente não saber. A ignorância – aquela legítima, inocente, cotidiana – foi banida do convívio social. Dizer “não entendi” virou uma sentença de cancelamento. Afinal, se você ainda não decorou os 97 acrônimos da vez, seus privilégios estão escorrendo pelos poros, seu preconceito é estrutural, e sua alma, possivelmente, passível de exorcismo progressista.
É curioso como as causas mais nobres passaram a ser defendidas com a delicadeza de uma britadeira operando às seis da manhã. É gritaria, dedo na cara e um linchamento moral coletivo por minuto. Porque nada diz “empatia” como envergonhar publicamente alguém que está tentando aprender.
E o que acontece quando o aprendizado vira um campo minado? As pessoas param de atravessar. A radicalização do discurso gera exatamente o que deveria combater: distância, silêncio e aversão. Não se trata de desmerecer causas, mas de lembrar que nem todo desconhecimento é má-fé, e que empatia não é sinônimo de patrulha ideológica.
A cereja do bolo, no entanto, é o surgimento da nova geração de “iluminados de rodapé de rede social”: gente que defende com fúria convicções que não se sustentam cinco minutos numa pesquisa no Google — e isso quando o Google está de bom humor. São especialistas em tudo e absolutamente formados em nada. Opinadores profissionais com doutorado em “eu li num post de Instagram”.
Tentar extrair um raciocínio saudável de um debate virou arte rara. Diálogo, hoje, parece jogo de paintball: o objetivo não é entender o outro, é acertar primeiro. Se você ousa pedir contexto, já é rotulado como conivente, omisso ou – o pior dos xingamentos modernos – “isentão”.
O militante-oráculo não apenas sabe tudo – ele exige que você saiba também. Seu saber é absoluto, e se você ousar não acompanhar, parabéns: acaba de ganhar um rótulo. Ignorante. Reacionário. Alienado. Ou, na melhor das hipóteses, “precisa estudar mais”. A ironia? Ele nunca quis te ensinar. Ele queria te punir.
E assim seguimos: cada um na sua trincheira, munido de certezas rasas e munição moral. Porque, afinal, ensinar exige paciência, e lacrar dá muito mais curtida.
Fim da crônica? Talvez. Mas o julgamento continua em cartaz. Sessões diárias, com entrada gratuita e saída cancelada.

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