
No coração da selva institucional, onde cipós se confundem com regimentos internos e onde até as árvores parecem exigir autenticação em três vias, surgiu um caso que paralisou o Tribunal Superior da Fauna.
O requerente era um saruê.
Não um leão.
Não um tigre.
Não um gato sequer.
Um saruê.
Mas não qualquer saruê. Um saruê convicto de que sofria uma grave injustiça histórica: jamais ter sido reconhecido oficialmente como felino. E mais — por consequência lógica, filosófica e sindical — jamais ter recebido o título de Rei da Selva.
Sua tese era robusta. Ou pelo menos robusta o suficiente para causar confusão em uma reunião de condomínio às dez da noite.
Segundo o Sindicato dos Saruês Unidos pela Igualdade Felina (S.S.U.I.F.), havia provas irrefutáveis da identidade felina do requerente:
Possuía hábitos noturnos.
Alimentava-se de pequenos roedores.
“Se caça rato e anda de madrugada, é gato”, dizia a nota oficial do sindicato, redigida em tom solene, embora cheirasse fortemente a gambiarra jurídica.
O gato advogado, sentado à bancada, observava tudo com aquela expressão clássica de quem já perdeu a esperança na lógica humana — ou animal. Ajustava os óculos lentamente enquanto tentava compreender como a discussão havia chegado àquele ponto civilizatório.
Porque veja bem: o gato não negava as semelhanças.
Sim, ambos circulavam à noite.
Sim, ambos podiam eventualmente atacar pequenos roedores.
Mas também havia semelhanças entre um avião e uma galinha: os dois têm asas. Nem por isso a TAM passou a operar galinheiros comerciais.
O leão, magistrado máximo da selva, mantinha-se em silêncio. Um silêncio pesado. Aquele silêncio típico de quem está revendo todas as escolhas da vida que o levaram a ocupar aquele cargo.
Com a juba impecável e o olhar perdido no horizonte, ele parecia fazer uma pergunta íntima a si mesmo:
“Em que momento aceitaram protocolar isso?”
Ainda assim, como verdadeiro rei da selva — e conhecedor da delicada arte de não arrumar problema com sindicato — decidiu ouvir todas as partes.
O representante dos saruês então tomou a palavra:
— Excelência, negar o reconhecimento felino ao saruê é puro preconceito biológico estrutural. Nosso associado sobe em muros, anda à noite e come rato. O que mais falta? Uma coleira gourmet?
O gato respirou fundo.
Era difícil argumentar contra uma tese construída inteiramente sobre recortes convenientes da realidade. Afinal, qualquer semelhança isolada podia virar fundamento para qualquer pretensão absurda.
Se o critério era fazer algo parecido, então:
o pato poderia reivindicar brevet de piloto;
o morcego pedir aposentadoria como ave;
e o peixe-elétrico talvez exigisse vaga em concurso da companhia elétrica da selva.
Mas o problema nunca foi a semelhança.
O problema era a expectativa.
O saruê não queria apenas existir.
Queria pertencer a um grupo cuja estrutura, história e natureza jamais foram suas.
Queria os bônus sem o ônus.
Queria o título sem a essência.
Queria a coroa porque encontrou duas coincidências no currículo biológico.
E eis aí a tragédia moderna das expectativas de direito mal compreendidas: gente que acredita que tocar a porta é o mesmo que possuir a chave.
A expectativa de direito é, no máximo, a esperança de um caminho possível. Não é posse. Não é garantia. Muito menos transformação mágica da realidade.
O saruê podia até admirar os felinos.
Podia imitá-los.
Podia estudar seus hábitos.
Podia até fundar um fã-clube chamado “Miau Livre”.
Mas continuaría sendo um saruê.
E talvez o maior drama disso tudo fosse justamente este: há quem passe tanto tempo tentando ser algo que nunca percebe o valor de ser exatamente aquilo que é.
No fim da sessão, o leão encerrou os trabalhos sem decisão imediata.
Precisava refletir.
Não sobre o saruê.
Mas sobre como a selva inteira havia chegado ao ponto em que alguém acreditava sinceramente que caçar rato de madrugada era critério suficiente para virar Rei da Selva.

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