
Antes o futebol era chamado de “esporte bretão”, um jogo em que a palavra do árbitro era soberana e a dúvida fazia parte da essência do espetáculo. Hoje, curiosamente, nunca se soube tanto sobre um lance… e nunca se reclamou tanto dele.
Os jogadores parecem atuar como se ainda estivessem em uma época em que apenas uma câmera, distante e tremida, registrava a partida. Simulam faltas grotescas, transformam um leve toque em uma tragédia digna de indicação ao Oscar, fazem da cera uma estratégia e cercam o árbitro para tentar reescrever um lance que milhões de pessoas acabaram de assistir por todos os ângulos possíveis.
O ápice do absurdo talvez seja a discussão sobre impedimentos. Com a chegada do impedimento semiautomático, a posição é determinada por tecnologia, sensores, inteligência artificial e imagens milimetricamente sincronizadas. Não há interpretação sobre onde estava o pé, o ombro ou o joelho. A imagem simplesmente mostra. Ainda assim, lá estão cinco ou seis jogadores gesticulando, apontando para o gramado, como se a insistência pudesse convencer os computadores de que eles viram algo que as câmeras não viram.
É uma batalha perdida antes mesmo de começar.
O futebol ganhou recursos tecnológicos justamente para reduzir injustiças. Mas alguns atletas continuam presos ao velho manual da malandragem, tentando vender uma versão dos fatos que dura exatos três segundos… até o replay aparecer no telão, na transmissão ou no celular de qualquer torcedor.
A tecnologia evoluiu. As câmeras evoluíram. A arbitragem evoluiu. Talvez esteja na hora de parte dos jogadores evoluir também.
Porque, no futebol de hoje, não é mais a mentira que vence a verdade. Ela apenas demora alguns segundos para ser desmentida.
