
Se no mundo real cada esquina tem um bar, no mundo virtual cada clique tem um palco. E é nesse teatro infinito que o usuário de internet se apresenta, variando o figurino conforme a plataforma.
No Facebook, por exemplo, a plateia é mais grisalha — não que haja problema nisso, mas a falta de filtro é proporcional ao acúmulo de aniversários. Ali, o que deveria ser um espaço de socialização virou o boteco do bairro: xingamentos gratuitos, acusações sem prova e desabafos que flertam perigosamente com o Código Penal. Já no Instagram, a cena é outra. Gente mais jovem, mais preocupada com o filtro da foto do que com o filtro da fala. Menos azedume, mais corzinha pastel e hashtag motivacional.
Mas no fundo, o que o usuário quer mesmo é atenção. Não é elogio, não é crítica — é só o ato quase infantil de gritar “olha eu aqui!”. Alguns se sentem tão invisíveis na vida real que se tornam superestrelas na timeline. E nessa busca pela curtida que nunca vem, espalham sua sabedoria de WhatsApp como se fosse tese de doutorado.
Quando o assunto é polêmico, três espécies emergem. A primeira é a turma do oba oba, que chega com gasolina e fósforo, só para ver o circo pegar fogo. Depois, a turma do deixa disso, que tenta apagar o incêndio com baldes de água mineral. E por fim, a mais curiosa: a turma do “acompanhando”, que não se compromete, mas não larga a pipoca enquanto a treta se desenrola.
E se a vida no feed fosse verdadeira, seríamos todos milionários, fitness, viajados e iluminados espiritualmente. O problema é que a maioria mal paga o boleto de luz. A realidade artificial é tão convincente que até quem conhece o sujeito na padaria pensa: “Ué, será que esse cara virou personagem?”.
A necessidade de demonstrar virtudes é outro espetáculo à parte. O cidadão pode ter ficha mais suja que pau de galinheiro, mas na internet vira paladino da ética, defensor da moral e guardião da justiça social. Tudo isso até o algoritmo lembrar que engajamento vale mais do que coerência. No final, vira só mais um bobo da corte digital.
E claro, não podemos esquecer os catedráticos de porra nenhuma. Eles não só erram, como ainda querem dar a palavra final. Postam a “lacrada” com convicção, e recebem aplausos dos fiéis escudeiros: “Arrasou!”, “Sem mais!”, “Perfeito!”. É a academia da ignorância premiando seus próprios doutores.
Engraçado é pensar que, no meio de tanta toxina, a corrente de bom dia da tia com gatinhos e passarinhos é o conteúdo mais saudável da rede. Ninguém xinga, ninguém acusa, ninguém acusa golpe de Estado. Apenas um inocente “Bom dia, que Deus abençoe”.
E talvez seja isso que nos falte hoje: menos indignação fabricada, menos personagem de novela, menos professor de Google, e mais simplicidade. Porque já houve um tempo em que ser homem de respeito era medido pela palavra dada, e não pelo número de seguidores no Instagram.

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