Autor: Jalim Rabey

  • Os 75 Capítulos dele

    Com o tempo, a gente entende que alguns livros da vida não foram feitos pra ler com pressa. Meu pai sempre foi um desses. Um enigma em carne e osso. Difícil de decifrar, de acompanhar, de entender. Durante boa parte da minha vida, nossa relação foi escrita em páginas confusas, com capítulos que pareciam brigar entre si.

    Quantas vezes me revoltei com suas atitudes. Quantas vezes questionei escolhas, silêncios, ausências. Achava que era meu direito julgar, apontar, cobrar. Só depois, bem depois, entendi que muitas vezes cobramos o que nem foi oferecido a eles. Exigimos sentimentos de quem nunca os recebeu com clareza. Esperamos abraços de quem só aprendeu a sobreviver com os punhos cerrados.

    Com os anos, a raiva amolece. A mágoa dá lugar à compreensão. Os capítulos, antes escritos em letras garrafais de revolta, vão ficando menores, mais suaves, mais fáceis de ler. E a gente vai percebendo que aquela história toda, cheia de altos e baixos, também nos escreveu. Também nos formou.

    Hoje, com menos julgamento e mais empatia, olho para ele com outros olhos. Não mais com os olhos de quem esperava um herói infalível, mas com os olhos de um amigo que enxerga no outro um ser humano – cheio de falhas, de acertos, de passados não ditos e de silêncios que gritam.

    Senhor Didi. 75 anos. Um senhor que já foi tudo em minha vida: herói e vilão, mocinho e bandido, inspiração e contradição. E talvez seja justamente essa mistura que o torna tão real. Tão ele.

    Hoje, não escrevo pra julgar, nem pra cobrar. Escrevo pra agradecer. Pela história conturbada, pelos aprendizados não ditos, pelas lições dadas no silêncio. Escrevo pra celebrar esse homem que, do seu jeito – e que jeito! – também escreveu a minha história.

    Feliz aniversário, pai. Que a vida te sorria com a mesma intensidade com que você, mesmo sem saber, me ensinou a entender os livros mais difíceis. Inclusive o seu.